O Altissonante Vena Portae

 

Fascinante como nos lugares mais inusitados da terra, o fulgor do âmago do ser humano continua incandescente, límpido e cheio de ternura. O projeto musical Vena Portae nasceu em Barnaul, cidade-guardiã da entrada para a cordilheira de Altai, Rússia, criado por Artem Demidov em 2006.

artem
Artem Demidov

 Os primeiros lançamentos foram ligados ao dark-ambient, constituído de ruídos obscuros, melodias abstratas e experimentais. Nos anos seguintes, houve uma mudança no clima da música na direção do IDM, ambient, pulso aleatório e downtempo. Em consonância, desenvolvem  faixas “fotográficas” que consistem em utilizar os sons gravados das suas cidades, trens, a natureza e as pessoas ao seu redor. Cada faixa é a história real, eventos de vida que se tornaram o Som.

Artyom Demidov
Insira uma legenda

Em 2011, o projeto une Katya Zlobina, que por sua vez também afetara as faixas de som. Pois, agora as músicas recebem os majestosos vocais mágicos de Katherine.

Katya Zlobina
Katya Zlobina
vena 2011
Katya Zlobina e Artem Demidov

Além dos vocais de Katya, o projeto assimila uma variada gama de instrumentos acústicos (glockenspiel, bronze escaleta ou blow-órgão, percussão, flauta nativa americana, guitarra elétrica, violão, Metallophone e outros mais).

Glockenspiel1
Glockenspiel
blow-órgão
Blow-Órgão
Katherine Zlobin
Flauta nativa americana
Metallophone
Metallophone

Além da dedicação à música, o Vena Portae conserva-se ativamente envolvido em atividades de concerto, bem como na realização de vários projetos artísticos de cultura (exposições, instalações, produções de teatro, etc) e uma série de apresentações em eventos e festivais, tanto na cidade e além.

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Master Class – Taças de Quartzo de canto
  • Que tal conhecermos um pouco desse envolvimento cultural?

Em dezembro de 2011, destaca-se o mesmo ano em que Katya havia incorporado ao projeto, a banda tocou no Photoinstallation “DeepLandScapes” por Alexandra Puchkova caracterizado pelos multi-instrumentistas tocando suas faixas fotográficas cheias de sons da mãe natureza.

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DeepLandScapes
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DeepLandScapes

Em 2012, o evento mais significativo para a banda foi a performance “WE ARE ALL THE NATURE”. A ideia principal era a conexão de todas as coisas com a natureza e do cosmos. Lembrete de que somos parte do todo indivisível.

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WE ARE ALL THE NATURE
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WE ARE ALL THE NATURE
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WE ARE ALL THE NATURE

Em 2013, Vena Portae realizou uma performance no festival alternativo de arte e cultura, Trimurti (especialmente, na zona de Chill-out). Todavia, o atributo marcante do festival é a conscientização humana em relação ao mundo natural. A concepção principal da celebração é o ato para com tudo: Sóbria e saudável maneira de vida. Aprimorando o desenvolvimento de interação ecológica e ética com a natureza e as pessoas ao redor.

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Line-up Chill-out do Festival Trimurti
Festival Trimurti (a zona de Chill-out)
Performance do Festival Trimurti

Em 2014, realizaram uma ilustre apresentação durante um dos mais belos eventos astronômicos, o Solstício de Verão. Um concerto de Estado de “Equilibrium”, em que usufruíram de instrumentos exóticos de todo o mundo, como taças de cristais.

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Concerto Equilibrium

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Atualmente, desde janeiro de 2016, Vena Portae está em expedição pela Índia apresentando concertos em diversos lugares como Arambol, Goa. Um lugar de celebração da essência natural com praias paradisíacas. De acordo com o próprio Artem Demidov, é o segundo ano que apresentam-se ali. Inclusive, é considerada a capital dos hippies, um lugar incrível onde todos os anos vão músicos, artistas, atores, dançarinos, faquires e outros.

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“Tudo o que você ouve aqui, ele realmente é.

Tudo o que foi ouvido e gravado por nós – os eventos que cercam as pessoas da cidade, todas as memórias, de alguma forma, que permanecem na mente, são esses sons. Quando você parar de ouvir a si mesmo, começa a soar em todo mundo. Nós só podemos apenas pressionar o botão de gravação.

Abstrato e absolutamente especifico.

Consciente e inconsciente.

De manhã e à noite.

A floresta, rio, as pedras e o ar.

Tudo tem seu próprio som e só há tempo para pressionar o botão de gravação. Aproveite sua experiência!” – VenaPortae

  • A.M.E. ENTREVISTA VENA PORTAE

Já mencionado anteriormente pela COLUNAS A.M.E. a respeito da sonoridade sinfônica do Vena Portae, projeto de Chill-Out criado e produzido por Artem Demidov. Oriundo da gélida Barnaul, a cidade porta de entrada às montanhas de Altai, inclusive conhecida pela preservação das tradições xamânicas russas.  De acordo com Artem Demidov, Barnaul é uma cidade normal com pessoas normais. Todavia, declara que  desde a chegada das “pessoas brancas”, continuam os povos indígenas locais habitando em áreas mais profundas nas montanhas, pois foram deslocados para lá. Porém, ainda há muito mistério devido o povo da montanha (cerca de 300 km de distância de Barnaul)  viver com os mesmos costumes de 100 à 300 anos atrás. Xamanismo é a principal cultura remanescente, onde pessoas relacionam-se em estreito contato com a natureza, sentindo-se parte dele próprio.

Sem mais delongas, diretamente de Arambol, Goa, local onde se encontram atualmente. Humildemente, com exclusividade, Demidov dialoga sobre a trajetória de sua ligação tênue com a música e transcorre entusiasmado, um pouco da sua história:

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A.M.E. – When and how did you feel involved for music? [Quando e como você se sentiu envolvido pela música?]

DEMIDOV – Propensity for music I felt since childhood. I remember when I was a little boy, I took my parents’ guitar, touched the strings and imagined myself on the stage. Maybe that time I had the desire to become a musician. My parents contributed to this. They made a present of records of Rolling Stones, Pink Floyd for my birthday. I received few toys. Generally all events of my life were accompanied by music. Honestly to say I eat music. And when I don’t listen to my favourite tracks for a couple of hours, I feel discomfort.

[Propensão à música eu tenho desde a infância. Lembro quando era um menino, peguei o violão dos meus pais, toquei as cordas e me imaginei no palco. Talvez naquele tempo tive o desejo de me tornar músico. Meus pais contribuíram pra isso. Me presentearam com álbuns dos Rolling Stones e Pink Floyd de aniversário. Ganhei alguns brinquedos também. No geral, todos os eventos da minha vida foram acompanhados por música. Honestamente eu me alimento de música e quando não escuto minhas faixas preferidas por algumas horas, me sinto desconfortável.]

A.M.E. – Where did come the name “Vena Portae”? [De onde veio o nome “Vena Portae”?]

DEMIDOV – I worked as a doctor for 10 years. This name is from medicine. It is the name of the biggest vein in human body! I like how these words sound.

[Trabalhei 10 anos como médico. Esse nome é da medicina. É o nome da maior veia do corpo humano! Eu gosto de como soa estas palavras.]

A.M.E. – What is the primordial essence to create ambient songs? [Qual a essência primordial para criar canções ambient?]

DEMIDOV – It is difficult to explain this. It appears in form of guitar accord, which can be the beginning of the whole track, or in form of simple melody, which becomes a base for a new track. Maybe we get signals from the Cosmos, that we let through us and make them into earthly music which everybody can understand.

[É difícil explicar isso. Surge em forma de acorde de guitarra, o que pode ser o início de uma faixa toda, ou na forma de uma simples melodia que se torna a base para uma nova faixa. Talvez tenhamos sinais do cosmos que canalizamos e transformamos em música terrena para que todos consigam entender.]

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A.M.E. –  How did you came up with the idea of recording nature’s sounds and human’s day-by-day with IDM? [Como você teve a ideia de gravar os sons da natureza e cotidianos humanos com IDM?]

DEMIDOV – Inherently I don’t like monotony and reiteration, that’s why I very seldom use ready-made libraries with samples. I am always in search of new sounds. One day I started experiments with sounds I had recorded on my Zoom H2. I cut voices of my friends, sounds of nature till they became micro-sounds. I stretched, warped, reversed them as well. Then I built rhythmical structures. Finally I found my unique sounding. Field recordings are raw material for me, like stem cells, which I use to grow new cells and somatic tissues. I can make percussion out of voice or a snare drum out of falling water drop sound, a kick out of low-frequency glitch. Of course I am not the first who experiments with field recordings and makes bits and melodies out of them. But everybody has an individual approach, that’s why different music comes out.

[Caracteristicamente não gosto de monotonia nem repetição, por isso raramente utilizo coleções pré-gravadas de samples. Estou sempre em busca de novos sons. Um dia iniciei experimentos com sons que gravei no meu Zoom H2. Edito vozes de amigos, sons da natureza até que eles se tornem micro-sons. Estico, deformo, os inverto também. Aí construo estruturas rítmicas. Finalmente encontro minha sonoridade única. Gravações em campo são matéria-prima para mim, tipo células tronco que utilizo para fazer crescer novas células e tecidos somáticos. Posso fazer percussão de vozes ou um snare de um som de gota d’água caindo, um kick de uma falha em baixa frequência. Claro, não sou o primeiro a experimentar com gravações em campo, nem a fazer batidas e melodias com isso. Mas cada um tem uma abordagem individual, por isso mesmo surge música diferente.]

A.M.E. – Nowadays, what are the main influences of Vena Portae? [Hoje em dia, quais as principais influências do Vena Portae?]

DEMIDOV – Lately I like very much what Jon Hopkins is doing. I am sure children will learn his music in music schools in 50 – 100 years, where they will synthesize sounds. Autechre, Boards Of Canada, Helios have special influence on Vena Portae, as well as glitch artists like Pleq and Kangding Ray. Ambient part of Vena Portae is nourished by music of Ishq, Jorhe Reyes, Steve Roach. In my youth I listened to rock music a lot, so my music teachers were eternal Pink Floyd.

[Ultimamente gosto bastante do que o John Hopkins está fazendo. Tenho certeza que as crianças aprenderão sua música na escola em 50-100 anos, quando elas sintetizarão sons. Autechre, Boards Of Canada, Helios têm influência especial no Vena Portae, bem como artistas glitch tipo Pleg e Kangding Ray. A parte ambient do Vena Portae é nutrida pela música dos Ishq, Jorhe Reyes, Steve Roach. Na minha juventude escutei muito rock, então meus mentores musicais foram os eternos Pink Floyd.]

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Artem e Katya.

A.M.E. – What fascinates you into the eletronic music? [O que lhe fascina na música eletrônica?]

DEMIDOV – First of all I like infinite facilities of electronic music to create. I can take a sound, noise, glitch or voice and make drums out of them. What is more it is a perfect way to impress different events of life in sounds. Every track is like a picture. It has information, images, memories. And of course electronic music fascinates us with its multilayer structure and atmosphere. But lately there are more and more live instruments and voice in music of Vena Portae. Now I play electro guitar with fx pedals. And it is very special feeling when you create music at the moment.

 [Primeiramente eu gosto das infinitas facilidades de criação da música eletrônica. Posso pegar um som, ruído, falha ou voz e fazer uma bateria deles. O que é uma maneira mais que perfeita de imprimir diferentes eventos da vida em sons. Cada faixa é como se fosse uma foto. Tem informações, imagens, memórias. E claro, a música eletrônica nos fascina com sua estrutura em multicamadas e atmosfera. Mas ultimamente tem cada vez mais e mais instrumentos físicos e voz na música do Vena Portae. Agora toco guitarra elétrica com pedais de efeito e é um sentimento muito especial que vem quando se cria música no momento.]

A.M.E. – From your perspective, how do you see the electronic scene in Russia? And around the world? [Da sua perspectiva, como enxerga a cena eletrônica na Russia? E no resto do mundo?]

DEMIDOV – I think harmonious combination of live sounds and electronic equipment facilities is the thing of the future of world electronic music. More and more electronic musicians will use live looping and combine it with analog synthesizer sounds and acoustic instruments, samplers and drums. I think computers will be used by electronic musicians in their set-up less and less. I suppose Russian electronic scene will develop along the same lines.

[Eu acho que a combinação harmônica de sons ao vivo e a facilidade dos equipamentos eletrônicos é a parada do futuro do mundo da música eletrônica. Mais e mais músicos eletrônicos vão usar looping ao vivo combinando com sons de sintetizadores analógicos, instrumentos acústicos, samplers e bateria. Acho que computadores serão cada vez menos usados por músicos eletrônicos em seus set-ups. Suponho que a cena eletrônica russa se desenvolverá pela mesma linha.]

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Foto: Acervo pessoal.

A.M.E. – An unforgettable moment? [Um momento inesquecível?]

DEMIDOV – For me one of the most unforgettable moments was our live on a traffic road on the bridge, which connects two parts of great river Ob. Our friend – a big fan of noise music – worked on this bridge that time and he decided to make a small noise festival on the closed traffic lane of the bridge. So 17:12:09 we placed our equipment right on this lane . And there were only cement blocks between us and cars and trucks. All the noises mixed. It was really unforgettable.

[Para mim, um dos momentos mais inesquecíveis foi nossa apresentação em uma ponte rodoviária que conecta as duas partes do grande rio Ob. Nosso amigo – fã de noise music – trabalhou naquela ponte àquela época e decidiu fazer um festivalzinho noise na faixa fechada. Então, colocamos nossos equipamentos na tal faixa. Só haviam blocos de cimento entre nós, os carros e os caminhões. Todos os ruídos misturados. Isso foi realmente inesquecível.]

 

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Arambol, Goa
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