A Ferida Exposta de Björk

Era 13 de janeiro quando a conta oficial da Björk no Facebook publicizava o lançamento de “Vulnicura”, previsto para março. A imprensa especializada ao redor do globo logo recebeu emails (que deveriam ser “top secret”) com chaves de segurança para escutar o disco (stream) uma vez somente. Lógico, como era de se esperar, algum esperto (obrigado!) fez o favor de compartilhar essa exclusividade com o resto do mundo e espalhou uma humilde versão mp3 128 kbps. Enquanto escrevo esta matéria chegou a notícia de que o álbum já está à venda no iTunes. Agora sim.

Capa de Vulnicura Por M/M Paris
Capa de Vulnicura
Por M/M Paris

Escutando as faixas na ordem, a primeira (e acertada) impressão que se tem é o retorno muito bem-vindo dos beats e cordas na musicalidade de Björk. Desde o fantástico Vespertine (2001) não havia violinos nem cellos em suas composições. “Stonemilker” é a introdução perfeita. Melódica, calma, quase melosa; poderia muito bem ter saído da trilha sonora do “Dancer In The Dark”. Extremamente lírica.

Show me emotional respect
(…)
I have emotional needs

“Lion Song” é um lamento um tanto despeitado de uma personagem completamente apaixonada, confusa, que não quer dar o braço a torcer.

Maybe he will come out of this loving me
Maybe he won’t
I am not taming the animal
(…)
Once it was simple
One feeling at a time
It reached its peak
Then transformed these abstract complex feelings
I just don’t know how to handle them
Should I try one of these moods
But which one?
The joy peak
Humor peak
Frustration peak
Anything peak
For clarity

“Hystory Of Touches” é uma rápida declaração de amor (2:56) no meio da madrugada.

I wake you up in the night feeling
This is out last time together
Therefore sensing all the moments
We’ve been together, being shared at the same time
Every single touch
We ever touch each other
Every single fuck we had together
Is in a one trust time lapse

Durante a gravação do álbum Foto: Instagram
Durante a gravação do álbum
Foto: Instagram

“Black Lake” emerge de águas escuras, turvas; história contada por uma persona destroçada e desencantada. Começa tímida, sem forças. Vai crescendo e se desenvolve entre cordas e sintetizadores até atingir o ápice, deixando para trás as mágoas e dores cantadas. Merecidamente a mais longa de “Vulnicura” com 10 minutos de duração. Linda.

“Family” é fechada, densa. Trata do respeito aos antepassados, dor e reverência. Com tais temas, percebe-se que não é a mais fácil do disco. “Notget” é sobre um sentimento redentor que não resistiu ao tempo. Para compreendê-la bem, essa faixa pede arquivos de melhor qualidade que o comprimido MP3. “Atom Dance” chega como uma valsa orquestrada no período vitoriano misturada a uma pegada momentânea quase breakbeat. O par: Antony Hegarty, dos Antony and The Johnsons. “Mouth Mantra” é grave, como o som das palavras quando saem de nossas bocas. Ao que tudo indica, há referência ao problema vocal que a fez cancelar suas apresentações no Sónar São Paulo.

My throat feels stunned
I was not allowed
I was not hurt!
I was not hurt!

Por último “Quicksand”, meio apressada, cortada. Estranha. Como se a intenção não fosse finalizar propriamente. Vai saber. Alguém pergunte pra ela, por favor.

Durante a gravação do álbum Foto: James Merry
Durante a gravação do álbum
Foto: James Merry

“Vulnicura” é talvez sua obra mais íntima e pessoal, dividida entre a felicidade harmoniosa do amor e a perda abrupta dele. O multi-artista Matthew Barney, com quem era casada e tem uma filha, Isadora, a deixou nos meados de 2013. Segundo os tablóides, não foi uma separação harmoniosa e isso com certeza está impresso em toda parte no disco. Mágoas e dores são uma constante nas letras, então não espere ambiências “fáceis” como em “Post” ou “Debut”. Para se ter ideia do tamanho do baque desse “pé na bunda”, no encarte há a divisão cronológica das músicas em “meses antes” e “meses depois”. Segundo fontes não tão seguras, Vulnicura significa “cure of a wound” (cura de uma ferida). Faz bastante sentido.

A turnê (sim, outra!) estreará em Nova Iorque dia 7 de março no Carnegie Hall (inclusive em matinês), com outras datas também no City Center. Já tem festival de música marcado: o Governor’s Ball no Island Park, também em Nova Iorque, em junho. Logo mais estará nas prateleiras o livro “Björk; Archives”, uma coleção de fotografias e textos que ela selecionou como retrospectiva de sua vida. Enquanto isso os fãs podem gastar seus milhões com o pacotão “Biophilia Live”, que já falamos aqui no Colunas.

A mulher não para. Ainda bem 🙂

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