Sintético Também Tem Alma

Richard David James aka Aphex Twin atualmente é um homem recluso, entocado em uma vila no interior de Glasgow na Escócia onde vive com seus dois filhos (um de oito, outro de seis anos de idade) e a mulher.

Natural de Limerick (Irlanda) nascido em 18 de agosto de 1971, mudou-se com a família para a pequena Lanner (condado de Cornwall na Grã Bretanha), entrando em contato com produção musical logo aos 11 anos de idade quando “viajava” numa maquininha Sinclair ZX81, espécie de microcomputador da época que salvava arquivos em fitas cassete. Bem antes de se tornar mundialmente famoso como precursor das composições sonoras em softwares de computadores, na adolescência foi DJ em festinhas de praia próximas de Cornwall, não demorando muito para chamar a atenção dos colegas com boas ideias e muita vontade de fazer música.

Em 1991 lança o primeiro EP como Aphex Twin intitulado “Analogue Bubblebath” pela Mighty Force Records, selo independente de Techno britânico importantíssimo entre os anos 1990 e 1995, com a faixa “En Trance To Exit” invadindo os playlists das rádios mais importantes do país. No ano seguinte fundou a Rephlex Records (de Acid House), lançou outros dois EPs “Analogue Bubblebath” sob a alcunha AFX e logo em seguida o primeiro disco pela belga R&S: “Selected Ambient Works 85-92”.

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Daí pra frente são algumas dezenas de lançamentos sob os mais variados pseudônimos (como Gak, Bradley Strider, Q-Chastic, Caustic Window, Polygon Window e o meu preferido Power Pill) variando entre Ambient, Acid House, Drum And Bass, até Drill And Bass – uma forma mais agressiva que o próprio Drum. Participou de diversas coletâneas e atingiu o ápice do reconhecimento com o single “Come To Daddy” em 1997, cujo videoclipe dirigido pelo sensacional Chris Cunningham (mesmo diretor de “Frozen” da Madonna e “All Is Full Of Love” da Björk) foi premiadíssimo na época. Tão lembrado atualmente (senão mais) o também incrível videoclipe de “Windowlicker” acabou proibido de ser transmitido durante o dia pelas imagens fortes e sexuais que contém, tendo de ser mutilado (originando a chamada Bleep Version) para que fosse reproduzido em televisão.

Dentre as excentricidades que o cercam (os vários estúdios em casa, a aquisição de um submarino russo, o dirigível contratado para sobrevoar Londres com o logo de Aphex Twin para promover “Syro”, a constante escuridão e a total abstinência de contato visual com o público presente em suas apresentações), costuma dar entrevistas de maneira embaralhada, irônica e por vezes sem nexo. Vez ou outra responde aos questionamentos de maneira eloquente, como por exemplo, em relação ao imbecil termo IDM – Intelligent Dance Music:

“I just think it’s really funny to have terms like that. It’s basically saying ‘this is intelligent and everything else is stupid.’ It’s really nasty to everyone else’s music. It makes me laugh.”

[“Eu só acho muito engraçado existirem termos como este. É como dizer: ‘isso aqui é inteligente e todo o resto é estúpido’. É algo bastante desagradável com os outros sons. Isso me faz rir.”]

Passada a ultra-exposição da década de 90, Richard lançou na semana passada (exatamente 19 de setembro) pela Warp Records o álbum “Syro” (segundo o próprio, palavra inventada pelo filho menor). Foi um hiato de 13 anos desde “Drukqs”.

Este sexto álbum soa como uma recapitulação abrangente do que Richard já fez até hoje. A melodia em piano (“Aisatsana [102]”), o beat mais quebrado (“CIRCLONT14 [152.97] (Shrymorning Mix)”), a pista de dança (“180DB [130]”), o órgão meio oitentista/analógico (“Syro u473t8+e [141.98] (Piezoluminescence Mix)”), a esquisitice experimental (“FZ Pseudotimestretch+e+3 [138.85]”). Os títulos das faixas remontam à linguagem informática e a arte de capa – que contém os custos de promoção do álbum – foi feita pelos projetistas do multiestúdio britânico The Designers Republic.

O disco também é prensado em edição limitada Box de 200 cópias em vinil triplo que acompanha uma placa mãe de metal impressa artesanalmente em talho-doce (técnica da calcografia), embalados numa caixa de acrílico finalizada com detalhes em silk screen. Custa £250 (ou €310) e só podia ser adquirida através de um cadastro seguido de sorteio na loja da Bleep. Com certeza já é um caríssimo item de colecionador.

A luxuosa edição limitada de "Syro".
A luxuosa edição limitada de “Syro”.

A qualidade e acima de tudo a inventividade desse autêntico gênio permanecem intactas com o passar dos anos. Exatamente por isso pôde nesse novo disco se dar o luxo de revisitar sua obra magnífica, ressignificando-a sem se repetir jamais. É como se ele fosse imune aos modismos e tendências que fazem parte da musicalidade eletrônica, se mantivesse enclausurado num buraco longínquo, concentrado unicamente no que sabe fazer, desenvolvendo fórmulas, combinações, timbres, melodias e aloprações até então inimagináveis como um daqueles cientistas excêntricos de filmes sci-fi. Quem sabe seja isso mesmo.

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2 opiniões sobre “Sintético Também Tem Alma”

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